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Banguela da morte ou o conto dez pontos

por Cláudia de Paula

 

Havia, antes do conto, uma casa e no chão desta casa arbustos de espinhos, grades de espinhos empilhadas geometricamente numa equação de quatro letras repetidas, curvas verdes de carne animal que não criavam flores, quinas e retas distorcidas que atravessavam o espaço que havia sido pensado e construído entre paredes, que fora feito de vazio e muros e agora se fazia de espinhos, profundos em seu dom de réplica, perfurando a presença, se fazendo do espinho e do negativo contraposto, uma contrarresposta, a inversão mais nítida, a imobilidade fixa, a massa do que não era espinhos e seu crescimento sendo matéria de contrário apenas, aquilo não move, nunca se moveu e nunca moverá, e a casa, ainda casa, porque a personagem não existe sem casa, sendo a casa o único habitat em que esta mulher respira, apavorada das criaturas humanas que explicitadas, avultadas em imagens multiplicadas, lhe empurram para os espinhos, ela fixa as próprias mãos em seus ossos e empurra os órgãos, um a um, para a mínima ponta e por mais que se esquive, se entrega, faz o furo, chora o furo, desprega o furo da pele e relincha, e por mais que ela desvie, continua empurrando, as dobras e células das dobras para o espinho, para a faca do espinho, para a lâmina que abre buracos e no mais do exercício, os furos vazam, fazendo amarelos lilases em seu rosto, um adoecimento estranho, fazendo círculos de preto escuro em torno da pele rompida, de cada pedacinho de pele que agora drena, deixa cair e o espinheiro, impávido, origindo de um morcego sem floresta, de um espinho quebrado que viera do grão de um pé, de uma sola de ar, dos quaisqueres fatos que, anteriores e reunidos, destinam o sempre a ser isso, agora no exato depósito anterior ao conto, fazendo a mão automática escrever enquanto alisa a personagem da mão, em carinho também mecânico e também doce e também a única coisa que a mulher pode fazer.

Ponto 1 – Bárbara arrancando os primeiros dentes, ainda muito fixados à prateleira da boca, ao esfregaço da língua, sentada sobre o chão, sentindo na pele o ritmo dos furos avançando, um tempo, dois tempos em percussão, tempo brando, atado à esta competência de sentir os espinhos vazando a pele e puxá-la com delicadeza, observando a poesia crua do escancaramento do horror, muito pouco distraída, distraimento compacto que nunca é mais que esse aleijão  de concentração nas bordas do pensamento, a falta assim de um maneiramento em despregar a vida de suas raízes laterais e partir, desfilhando-se das radículas frágeis que seguem, despregar do que resta na peneira, do que faz grumo na rede, no que cai junto com o que não prende porque é levíssimo ou insuficiente ou pesado demais para existir, algo a que Bárbara, em sua infantilidade, sempre esteve reunida, partem de tudo, agora, estas margens retornam e arrastam, atravessando em muitos lugares, as aberturas diminutas, as encruzilhadas de matéria oca, ao mesmo tempo despartindo e permanecendo no fixo da repetição, enquanto macacas, moelas de galinha e as escuras carnes do peito berram, incrédulas partes fêmeas das coisas, ante as folhas que queimam ampliadas em árvores e a herança da história sem digestão, um traço comum entre criaturas errantes e almas imóveis, entre crianças e as tristes mulheres quase mortas, Bárbara, quando as bolas douradas da cortina barram a janela do sol, bárbara percebe, na pele do corpo o que impenetra por ser mentira, uma mentira deslavada que não relativiza mais nada, que clama pelo primeiro absoluto que Bárbara presenciou em seus oitenta anos de vida, chegam, franjados de luz, os espinhos trazendo o imperativo de vigilância, olhos abertos sem remela, secando ar, queimando o líquido do sal, na irrupção da crueldade abjeta, do líquido pavoroso que lubrifica os espinhos,  e a projeta, todos os dias, descamando o impossível, no arremedo de controlar o horror, as nuvens petrejando, apenas apontando as formas que nunca desenham, as bolhas que sempre inflamam, um amargor abrindo a barriga magra em banhas, gorduras e brilhos de merda, e o mais triste da dor, que se assemelha profundamente à liberdade dos idiotas, espelhando o fundo dos poços, os bagaços estripados que escondem os corpos, regurgita sobre aqueles que sobreviveram, ou sobrevivem todo dia, sempre deixando o rabo nas pontas do concreto, dando a entrever o sangue que as pétalas cheiram e cobrem,  o horror,  a contração que ofusca, a criatura nojenta que lambuza os orifícios enfiando dedos que não foram concedidos, dá de comer às mulheres formigas iguais que gozam da violação, o horror disfarça em rotina tudo aquilo que falta, aquilo que entope de nunca desaparecer, sempre, e Bárbara, porque há demais do tempo insistindo em continuar, permanece na casa, debaixo do real que se impõe, na pedra, nos gemidos dos deuses distantes, nas personagens mancas, no aqui bem perto que enlanguesce de espinhos, nas caras mortas dos homens vivos, no infinito de fraturas abertas da infância, na acrobacia dos machos feridos estapeando as bundas dos veados, na florzinha desqualificada que morre e morre e vira onda de lágrimas e depois despenca no chão do definitivo e há no insulto o que chega e marca a fibra mais longa de alma e na burrice muitos gomos de dedinhos em volta dos clitóris ou benzinhos em torno dos caralhos mal-ditos, de desconhecimento e tristeza, na burrice despencam toneladas de ai-meu-deus e o lixo mais triste desses olhos negros e o que dissolvem nas contrapartidas do ódio e, logo depois do pulsar do irresponsável, pulsam os da lama e os do beijo sem boca, e os do batom fabricado em neon que, sozinhos, almejam ser estátuas de beijos, logo ali derrubando as grandes árvores do norte, abrindo em brilhante a solidão do vírus alojado, do espinho de cabeça decepada, nos restos de shampoo infectado, entre o mais rente ao mesmo, caindo entre a desleitura dos mal-lidos e os abraços, sem permissão, cheios de poder,  feitos às fibras da estátua de carne, que inventaram de plantar na dureza do deserto que incandesce de brasil.

Ponto 2 – Bárbara amparada sobre a sombra, arrancando os segundos dentes, se segurando em unhas à casa, enquanto e sobre os efeitos do paraquedas preto a despencar, sem abrir, vindo lá do céu, vindo morno, movimento continente, rasgando cada camada de história pútrida, as sequencias de beijo e a última resposta, a onda que bate e repuxa, a mão sem roda balançando crua, o contrário do eixo contrariando as verticais do espaço, a história entre seus nós, feitos dos restos residuais do que sobra, as aparas das imagens cortadas coladas desfalcando sentidos, arrancando nacos de palavras, história sempre dos atos, amamentada nos maus usos da língua falada pensada composta refeita, dos atos inventados por alguns, ao lado, sem quinas, nas barrigas das curvas, no caldo escorrido do lodo, na sujeira encravada nas pisadas lunares,  remendos, apliques de plásticos suprimindo buracos, macacos pelados de cus abertos avermelhando a docilidade das perversões, trançados de cores sem gradação, o preto do branco nos dentes e ideias, meias cinzas espalhando o varal do gozo sobre o horizonte fechado, sem sol, sem chuva, sem vento,  as desmanteladas contradições, a película de um quase vivo adentrando em alvéolos, ressecando a melosidade no oxigênio dócil que perdeu o azul, a azulada ação, o  azulado arroxeado do ar faltando que se fez ornado de volutas e infiltrações, depressões na platitude de sua superfície, história descendo enluvada de brocado e palha a escada da torre, toda feita de peles arrancadas do sangue fresco das bestas que ainda correm nas telas, explicada, descurvada pelos minúsculos animais do cotidiano, as bonequinhas rechonchudas cheias de trechos das marcas de dedos, a merda tão fresca botada pela colher no avião sem nuvem que aporta a boquinha do qualquer um, o débil que ignora, o insuficiente que implora, o suficiente que ora, o verme que adentra o espelho e sorri igual, verídico, cheio de documentos nos bolsos, forçando a comida impressa, sem gosto, agonizante,  envenenada, a subir goelas, a deflorar imagens fluorescentes sem deixar poucos famintos, um mingau fedorento, uma bacia de folhas brancas explodida em flocos que nevam, todos os dias, sobre os rostos feitos de olhos somente, olhos contaminados por pestanas que foram cílios e hoje são fios de vírus, apalavrados ao extremo foco, desfeitos de retinas e envelopes de ir e vir e ir sem sempre, todos ao meio, pelo mofo verde tão feito de coisas verdes que somem, coisas úmidas que não somem, brotos de coisas mortas que desviram, rodam,  seus avessos, coisas folhosas e sem raízes, comprometidas com a morte, dessumindo seus ocos, história que de tão presente se veste e repete o mesmo vestido cínico, história perfumada por tantas formas de guerras, em tantas versões, e, tão bela, o belo insistindo em ser mal pressentido em bem, ser ferrugem e arruinar o bom moço entorpecido, as religiões de deus, a religião do deus mau, o bom moço ensimesmado em emprestar ouvidos ao deus cruel, em cada segmento o pior de uma época, os longos e ornamentados julgamentos do moço transformando-o em moça e deixando-lhe à caça dos cães que salivam os ratos que passeiam pelas vaginas sempre destacadas daquelas, que foram virgens e tiveram caralhos e foram anjos, sem saber, por nunca habitarem aquele paraíso mal-dito e mal-feito pelos homens surdos, que nunca foram negros e nunca pariram e se pariram,  disseram mentiras sobre as gargantas da dor.

Ponto 3 – Bárbara arreganhando seus peitos, tirando a depositar, seus terceiros dentes, em copo de água, colocando-os sobre a janela fechada, na parede maior, desnaturada, desfundada ao deixar de estabelecer o limite dos olhos de Bárbara Mariana Chaves, que ante a história, emparedada pelo imenso espinheiro, arreganha também e logo depois, seus lábios partidos em quimeras e lesmas, quimeras que não sonham nem anteveem nada, fragmentos de tempos idos em pensamentos, lesmas que repuxam seus ausentes lábios e bolem com as beiradinhas de seus olhos de não ver, ante a história Bárbara faz, no corpo, um traço de giz, e depois troca o giz pela caneta azul, afeita ao qualquer da caneta e da cor, e segue riscando entre cada costela óssea, mas também de átomos viajantes, mas também de carbono e do ouro que não brilha mais, segue riscando, tateando o pulmão fechado em aberturas e cachos de películas filtrantes, amável pulmão deslocado de órgão subterrâneo, afeito ao mínimo do cotidiano e suas ânsias de suplantar a razão e deslocar as peças, peça a peça, um fiapo enroscado ao lado do nada, um agudo plano da ausência dando a ver de ser peça, cada alinhavo da vida cuspindo e arrotando submissão e medo ante o qualquer mínimo da sequencia de quatro letras do genoma simplório que aprendeu a dobrar-se e a continuar se dobrando até o nunca infinito do não pensamento que habita o vírus e, Bárbara perdida de suas chaves, habita este laço da história oferecido ao plasma do sangue riscado, sem desvendamento, risonho sangue que corre por canudos de pele tão metálicos quanto voadores e tão afeitos ao corte quanto à ternura dos olhos da mãe, a cadela raivosa, a puta sem vagina a proteger, a puta machucada e ferida das ruas desertas, a puta reclusa e enfiada no sexo fora de si, no sexo galáctico, no sexo das telas azuis, na mão rendada de curtos e circuitos que esbofeteia a história e seu laço patológico, e antes da mãe, a costela morta do homem sem mãe que em seus deboches e trepadas com jovens filhas abusou da condição de mito e escarrapachou-se em ordens paternas e cruéis, que matam homens diferentes e poéticos, bichas com colares, bichas com crucifixos de são Jorge, mulheres veadas, mulheres minguadas, mulheres tristes, matam, matam muitos, matam transparentes de eus com implantes recortes decalques, matam coisas pessoas padecentes da pura indefinição, matam e rasgam criancinhas, matam muitas mulheres, mulheres crianças e inseguras de portar vaginas, bocetas e desengraçadas vulvas roxas, e ricamente ornamentadas de lábios vaginas policromáticas, matam mulheres malévolas burras misóginas, de mil e uma noites malditas, matam ingênuas criaturas tolas, culpadas de perderem-se nas  florestas com arvores de papelão, matam os pedestres atropelados pelas invasões do sentido, as eternas bifurcações que correm demais, matam, com muito prazer o verdinho violeta que nasce no coração dos frágeis, dos homens castanho-avermelhados, matam em Bárbara, mataram desde muito as marianas, arrancaram as jacas, cuspiram no chão as bagas, as marias, as anas, as azuláceas amareladas de vez em lágrimas, todos, os uns que já desde meninos brilhavam de medo do sexo, antegozando, matam ainda agora diante da crua espuma preta da miséria exposta pelos galhos do espinheiro, do último beijo, da comum palavra sobre o olho seco,  do cercado de galinhas, do cercado de negros presos, do pão posto em quarentena, do mercado gelado empilhando latas de doces, da morada quebrada montada em torto vão, matam bem abertos os olhos dos filhotes úmidos que dormem no chão, matam, sem morrer, o próprio da morte e, aqueles que cheiravam obscenos em 64 e agora cheiram à todas as mortes, matam seguros de manter cobertas de mar e, agarradas ao lodo, as prematuras ossadas, vestidos do verde da morte ainda sem culpa, ainda sem castigo, da morte recuados ao silencio ósseo da carne ferida, matavam e matam na modelagem própria dos animais expulsos, da terra asfaltada que termina no rastro latejado de um pequeno silencioso quase morto, quase vivo, que cacareja e bica, laranja gordura, vazando a pele daqueles que encostam na pele e na voz do espinheiro, matando, do qualquer em um e no outro, o mesmo lavado e besuntado amor,  e aquilo que transmite emite infiltra corrompe,  que vira isso e que é dado a berrar pela dor vazia do corpo, isso que é dado a ser corpo que urina morde dobra lasca lambe esburaca e estremece ante o bafo do medo e o funesto e o bordado e o lampejo disso insiste em perdurar, um algoritmo fosco deslocando-se sobre alvéolos indefesos, sobre um país devastado, sobre o buraco onde repousa a inexistência.

4 – Bárbara quebrando ouvidos, deixando-os no fora possível da cena, repartindo seus quartos dentes em dois pares, embrulhando-os com canfora e alecrim, o primeiro par jogado, à distância, pelo minúsculo da fresta para atingir o mar, o segundo par atirado ao espinheiro, para ali deixar marcas, algum rastro do que não se decompõe nela, do que afunda no tempo que cochicha aos ouvidos, Bárbara com os ouvidos nas mãos, partidos de milhares de estrelas de poeira, quebrados pelo espinho e pelo adubo que fortaleceu o espinheiro, Bárbara ciente da longa dor que se espalha sem retorno e quantos, muitos anos estão agora dentro destas semanas tristes, quantos são, muitos, os pedaços de dias que cabem dentro destes meses tristes e quão imensos são os nódulos de afeto, tão maciços em sua impostura que lhe salivam as bochechas cada vez mais frouxas, e, ao repente deste desespero secular, rolam, em lado estreito, na beira do oceano agonizante, tocando seus pés, as maças caídas e rejeitadas por Eva, Eva apta a voar, apta a amar o anjo decaído, apta a garantir sua falta de origem na reles costela daquele adãozinho sem sorriso, cujo destino seria expropriar, arrancar dos cus os fígados e dos fígados as folhas vivas, recém nascidas, servindo-se da mais íntima voz dos seres em refastelo dos seus, e Eva solícita, atenta ao fio de frutas esmagadas que, espalha suas pequenas falhas entre o vermelho e o amarelo da pele vegetal,  manchando as moléculas, marcando os pedaços de terra por onde caminha e dá à Eva o que ela não tem, a perspectiva de sua herança, a lembrança dos galhos da árvore lhe pressionando a cabeça tonta, lá onde se pendurava para ler, Eva túrgida de desobediência, transparenciada, contornada pelo líquido quente chamado sangue que escorre das balas perdidas achadas em corpos negros neste brasil tão perdido, Eva que acalenta os pés frios de Bárbara e por estes amargos segundos caóticos que isolados são um tempo vertical, busca seus lábios inexperientes num beijo de duas mulheres e todo o esquecimento anunciado pela cobra da árvore pisca, fulgura, arvorecendo, na floresta de espinhos, o ninho branco da cobra e a casa da personagem, arquiteturas edificadas como resistência, enquanto a memória do esquecimento percorre os inversos, arrancando dos homens as roupas do movimento, revestindo-os do roxo do ridículo, lembrando à bárbara seu mal estranho, patologia que dilata o rosto, nos espaços entre espinhos, em furos necessários ao rompimento, arrancando paladar e olfato, pondo em pratos quebrados a terrível delícia da ignorância, anunciando que da saliva sagrada escorre o enunciado do proibido e da proibição, um caldo que rompe a cena e é replicado pelas milhares de telas azuis cinzentas, estrompa as membranas do casulo do que foi a humanidade e mostra, sem garras, em calma e estúpida atrocidade, o que o deus bandido e os outros bandidos que gozam de deuses e mitos querem ocultar.

5 – Bárbara limpando os olhos da exaustão, tocando a boca recém-beijada que por sinal, cospe seus quintos dentes, e quando cospe, escolhe o ralo que dará no esgoto, dará na cidade subterrânea, nutrida do que os corpos expelem em êxtase, Bárbara escolhe o ralo, tentando assegurar aos dentes o movimento da água, Bárbara lambe o gosto da ausência de gosto, sentindo a pressão da boca primeva, da boca da história dentro do gosto sanguíneo nas cavidades dos dentes que já apodreciam, Bárbara velha de dentes velhos, que caem, aos poucos e dos furos, nos furos dos ralos acidentais, nos mínimos círculos dos ralos espalhados, ralos que escorrem as linhas do grande desenho, suas negras concavidades e como a casa, em negativo do espaço,  acompanham o espaço se invertendo, travessões de pontos são linhas recuando,  inscrevem palavras sem tradução, esboços contínuos que não precisam nenhum traço, que alinham todos os ralos e apenas assinalam a passagem do tudo, as cunhas de cada letra inventada e soprada sem reunião, nem mesmo a arcaica oralidade dos povos originários deixa marcas maiores que os vãos, e nas gargantas de pvc o ar pesado satura, a consistência do perdurável juramento rompe o silicone das emendas, a perduração ecoa à merda, a eternidade fixada no movimento de viver em restos, tudo a falhar sobre o espaço circular,  mínimos brotos dourados situando a falta do ar respirável sob os bolos cabeludos do nojo, um pulmão, dois pulmões, milhares deles, asfixiados, embaralhados, avassalados pelos deveres de sobrevivência, pela clarividência atordoante, pela miséria, pela incompetência em acompanhar as tantas vozes que atravessam o inferno enquanto a chuva cai lá fora, enquanto dentro do banheiro Bárbara chora e vomita seu ódio sobre o mecanismo da dor, mecanismo que conjuga a boca ao cu, que compõe na repetição de elementos sua capacidade de afastar das imagens o suor, enquanto muitas, muitas pessoas sofrem e morrem e perdem e despedem e despejam a impossibilidade em permanecer, aqui, sobre o vírus, sobre o tempo, ao lado do demônio maldito que preside o escárnio, que convida para o banquete, que recolhe do fundo mais fundo da cidade submersa suas iguarias, que ri enquanto as portas batem, enquanto o sol escurece sua rotação definitivamente sobre o bafo das florestas queimadas, que sacoleja seus olhos medonhos, ao mesmo tempo em que as portas batem e estremecem paredes e os sinos, que não mais existem, repicam, que gargalha o feio  enquanto ensina as portas a continuarem a bater, enquanto o banheiro está sujo, inundado pelas secreções das criaturas que agonizam e vai permanecer sujo e infectado pela ordem desta nefasta criatura, enquanto estremece a velha arquitetura da vida já em ruínas, e as matracas dispersam os números editados diariamente, números que não servem de cola, não rejuntam nada, emprenham a cidade com a lógica nefasta deste ogro senhor que não abraça as lágrimas, não desentope os ralos e espreme os peitos que estão fora do jogo, aquele que emite o eco da voz, marcando pelo X do escárnio algumas as portas que batem, quebrando os batentes que contornavam as passagens, voz alvissareira que convida os fantasmas a respirarem o vento que brota do espinheiro, mantendo guardados, aprisionados os sons, que deixaram os ouvidos de Bárbara e na saída quebraram as paredes dos ossos, sons que agora tripudiam, festejam, esgotando os corações baços, atravessados por tantos espinhos e cobrem de feltro preto as portas que já não batem, despeitando os céus, arrancando as grandes mamas de ar de um céu já tão triste,  sons que engolem os outros que são tantos e invadem pulmões, abandonando-os ao extremo da função, sons que se reúnem aos sons do riso, no banquete, sons que preenchem todas as bocas ocas, sem línguas, algumas que se arrastam pelas telas obscenas, algumas que são bocas cheias de dedos e enfiam, à força, pelos ralos desabitados de ratos, o cheiro da morte, e, por fim algumas, as últimas, que estalam, chicoteando, ungindo de roxo aqueles que estão destinados à solidão do morrer, pelo favor da solitária diferença.

6 – Bárbara tenta afrouxar o peito abarrotado de pedras, instalado no estreitamento, ao lado do espinheiro viçoso, um estreito despovoado, sem negros ou quase negros ou negros, a superfície branca e tão triste, a superfície mais desolada que já viu, Bárbara se esforça para respirar sobre as pedras que lhe cobrem os olhos machucados, enquanto desatarraxa seus sextos dentes e limpando os pinos daqueles dentes, já trocados, já destinados a não permanecerem em seu corpo morto, quando ele estiver definitivamente morto, se esfrega na parede, já agora tão destoante, tão sem método de proteger, parede que lhe esfola o branco tão igual ao preto, branco arruinado que ainda é pele mas não tem marcas de balas, não teve que cicatrizar feridas feitas por olhares que a olhassem do plano branco da vida, ainda que se envenenem também mulheres loucas, parede, bem no meio da casa, que cheira sangue tão desigual, tão nunca igual, sangue que cai em bacia caindo sobre a cama de Bárbara, e não cai nas cadeias, nas favelas, não sobre as motos azuis que carregam comida, não sobre os panos que esfriam nas filas as barrigas com fome, sangue que cai dos olhos, sendo intestinal, sendo feito das garantias de nascimento, sangue que entope a garganta perdida pela ausência diária das lágrimas, que enquanto corre nas veias não se arrisca a manchar o chão, a qualquer hora, em qualquer pedaço da história brasileira, sangue seco sob as unhas da mulher branca que pressiona seus dez dedos sobre o roxo da dor preta que não conhece, sangue que desvenda a personagem, levanta o pano branco que lhe cobre cabeça e dentes, berra onomatopeias para o chão, abre o buraco da crueldade em Bárbara que reconhece, empedra e adoece de nitidez, seu branco encaixe, seus sórdidos privilégios de mulher assentada sobre a sala da escrita, sozinha, isolada, comendo, quase não dormindo, tendo pesadelos desfigurados, estrangulando seus quereres, quebrando a hélice do desejo, quebrando o motor do desejo ante aterradora figura que lhe reprisa, que é tantos dela, que é tantas de qualquer uma e padece de olhar para os pés e ver raízes e ver o mal sobre as próprias pálpebras e querer furar o chão, novamente, outra vez, e abraçar os mal-amados que brotam desses escombros e nunca mais dormir.

7 – Bárbara aboletada sobre o fígado encharcado de álcool, entorpecida diante da horda de elefantes que afundam pegadas redondas sobre a terra, diante do delicado cardume de peixes prateados que apenas voam sobre o mar, bem diante ao esplendor das asas verdes e nunca mais verde-amarelas já que do horror salvas pelos baldes tropicais de violetas lançados aos céus, diante das jubas marrons dos enxames, das finas lâminas de pés decepados das sanguessugas, das boas enxurradas de cães uivantes, Bárbara apavorada pelo cheiro de fogo derramado sobre penas e couros, fogo que deforma as imagens das telas na carne das aves que explodem, as aves que implodem e mancham a terra da forma do que não mais se nomeia, Bárbara, aleitada e desmamada, não ri mais, perdeu com os dentes as gengivas rosas, que latejam cheias de covas, Bárbara esvazia sobre o mundo, esvazia sobre o que da janela rompe, despeja nojo, asco, um corpo sem cor, medroso de história, sem sexo, sem flor, dá socos em toalhas e as toalhas são os homens e mulheres que portam bandeiras enlameadas na televisão, cospe e baba sobre os seios que boiam sobre o céu da quase noite, desfilhados, estrangeiros, migrantes não aceitos, Bárbara dá socos nos braços e lembra das brigas dos pais, Bárbara dá socos nos lábios, sangra o que é sensível e se magoa, quebra seus sétimos dentes inúteis, dá pontapés sobre a cama, corta os laços das fronhas, penteia os cabelos que teimam em manter o crânio inteiro, solta os nós e boia até onde estão os patos apodrecendo, as baleias sem barrigas, as sereias que nem por serem sereias e não terem vaginas escaparam de ser violadas, desliza, sem mãos porque as mãos perderam-se no vômito, esconderam-se do vírus, foram cortadas em castigo por serem apenas mãos de jardim e plantar folhagens e não saber de carinhos e serem mortas mãos de estátua sem nada a fazer do que faltarem aos bustos, mãos retiradas com photoshop por não serem mãos que sabem como esquecer da superfície da barbárie, enquadrada exposta repicada, todos os dias, mãos que viraram intestinos ocos e sem uso, deixados de lado para dar bichos amarelos e fúcsias bichados que cobrem cadáveres e, no depois, logo ali ao lado, o lado íntimo dos átomos das cenas sem nexo, encontram o que há de Bárbara no suspiro que quase escorre, ela, que a essa altura caminha sobre as águas que secam, tem os pés rompidos, o estômago ácido, o nariz sem vislumbre de cheiros e não sabe falar com os deuses verdadeiros, pois está profundamente doente.

8 – Bárbara acamada na vertigem da última aragem do humano, enfraquecida de issos em demasia, Bárbara que pendura bolas de vidro na anarquia dos símbolos,  recolhida de coisas em demasia, que espreita nos corredores quintais estantes órgãos, estufada de poesia em demasia, que resta de todas as práticas, Bárbara faz do barro um barro que nega Adão e lacrimeja o Jequitinhonha e sua fome de arroz e feijão, no barro urinando e molejando um pequeno oco onde deposita seus oitavos dentes, daqueles que nunca viram leite e nasceram intrusos no céu da língua materna,  galhada que só feriu as palavras por regatear, sempre, disputando com o nexo, destripando-as, arrancando delas sons de surpresa, e pelo favor desta herança, que se fez necessária, ao retirar do possível seus elementos de formação, Bárbara passou a afagar as dúvidas que descompletam as virtudes semânticas, na transparente garrafa que acolhe a ausência de som guardou a dívida, ressonando breve, ressoando a válvula que abre e fecha o sentido, desfolhando a cantilena de amor endereçado aos rostos silenciosos, conhecendo seu ridículo extenso, seu perfil profanador, Bárbara passou a amar os quadrantes da cena, pedindo licença para trocar de canto ao senhor das miragens, passou a ver fantasmas e descobriu que eles existem em múltiplos e tipos e marcas, e que refastelam-se, agora, nas ruas imundas que deveriam estar vazias acolhendo as folhas do outono e não a saliva empesteada, Bárbara que ouve suas vozes, e prensada na nova modulação de casa que o vírus fabricou, esta casa onde as ruas passam pelos quartos entulhados de objetos, escuta quando suas mãos buscam suas vaginas cansadas, seus paus rançosos, seus cus esgotados e encenam rituais tristes para as câmeras sempre mágicas, Bárbara fabrica bolhas e hiberna e assoa o nariz em metáforas de pertencimento elétrico  ao vivo, dentro para não esquecer, dentro para chafurdar na merda e espreitar os outros que tão distantes lhe mordem as orelhas sem ouvidos, os olhos sem lágrimas, o peito sem mamas, os pulmões sem oxigênio, flamejantes, visitantes, que em seus oitenta anos, foram por demais visitados, porém permanecem opacos, atormentando nos lapsos, nos atos que escapam, nas lacerações da linguagem, Bárbara que assiste as danças quebradas, gingantes, que em ignorância louvam, divinos de outra linhagem que habitam os espelhos modernos e afagam os pescoços lisos das galinhas decapitadas, correndo por ação do movimento do sangue, Bárbara que, por ação do veneno dos espinhos, inunda-se de espectros, de fagulhas, de berros surdos, de berros congelados em vidros de geleia, de tempestades, da angustia dura, do cheiro da miséria que envolve os vivos e duros homens, Bárbara que arruína-se de pesadelos, eles que são feitos da elasticidade da fantasia, eles que são feitos da cabeça afrontada pelo cotidiano, cheios de ausências e que bulham, cacarejam, ruminam pelas ruas da casa.

9 – Bárbara mede os passos que a levam até a filha, os passos que a levam até o marido, num exercício insone de desmontagem das relações, percebe que, em seu itinerário diário entre um e outro, gaiola na qual vem vestindo suas roupas desbotadas, onde vem suportando seu feminino de meia tigela, ou vinha, ou vai, ou ia, até que os carrascos a precipitaram na visibilidade da sua medíocre ideia de mulher, Bárbara percebe que agora, sobre a sombra desta alquebrada figura, cercado de espinhos, existe um tanque de criaturas aquáticas que, também ritmicamente, desenham a rotina do ir e vir em curvas suaves e desassombros, as levíssimas serpentes marinhas, desgovernadas onças aquáticas que ali encontraram refúgio dos incêndios, dos caçadores, dos colecionadores de objetos de pele pintada, as descabeladas freiras de espuma, virgens carregadas de caramujos vigilantes, ciclopes de pés com membranas tão vermelhas, ciclopes de passos que os carregam por dentro do mar, berrantes criaturas sem órgãos sexuais, o meio descêntrico, sereias atravessando insones, expondo o órgão inexistente, pássaros de água exibindo o dom da voz, moscas de cu aceso cuspindo vapor, tanque onde Bárbara molha os pés e pensa, todos os dias, em como continuar a ser mulher, arrastando o isolamento como matéria concreta que lhe adiciona órgãos sem função específica, que a envelhecem pelo peso de suas linhas e revê, a cada novo dia de ausência, a casa, o seu papel de desenhista dos espaços entre as palavras, puxa fragmentos empoeirados pelo esquecimento da normalidade, força condutas, atropela o peito já tão cansado de sentir semelhanças com seus eus mais robustos, lambe as vilosidades dos fatos e arranca, dos fatos, as cabeças e os rabos, como fazem às galinhas, para alisar as fissuras, seus côncavos e precipitações, e se inquieta, todos os dias, sob o peso da linha rompida do mundo, sob a destruição do seu desejo de sexo, sobre a insígnia do nome, e ainda Bárbara vaza e se acostuma ao não movimento da dor.

10 – Bárbara morre em seu lugar humano, Bárbara morre ao assistir a última passeata dos horríveis, Bárbara morre, aos soluços, feita de águas e poeira, em seu  ultrajado espaço de existência e despeja terra, cuspe e merda sobre a televisão que apresenta, com rigor, o último suspiro da humanidade, Bárbara morre presa ao chão da casa e ouve o assovio nas asas do vírus, um deboche de volúpia, no minúsculo corpo de asas imensas, latejando a insuficiência em ser, a esplêndida possibilidade em ser, o qualquer um do destino de espinho, apresentando a soma de proteína lisa ao banal da célula, o largo da cidade capturada, em cada vão de repetição, Bárbara ao morrer ocupa criaturas, criaturas que desistiram do pensamento, criaturas que não desistiram do pensamento, iguais ao vírus, nunca iguais diante do vírus, Bárbara morta sacoleja, incapaz de não fazer parte dos mortos que vagueiam, conta todos os números e todas as coisas a que pertence, refaz toda a narrativa de amor que conhece, espreme todas as espinhas que possuiu na adolescência, se arrepende dos personagens sexuais que interpretou, atravessa a casa, empilha todos os medos que enxerga, não sabe de si, não sabe do cadáver que arrasta, sente a fúria dos dedos que almejam esbofetear as pessoas da tela, alisa o azul da couraça do gigante que ainda é um besouro e faz novos ângulos no cinza do teto, Bárbara toda morta espreme sobre o lábio uma pétala com cheiro e imensidão, convulsiona, mija  avulsa dos pulsos cerebrais, retoma a vigília, come o creme da nata sobre o café, não entende o horror, não entende a voz virtual, não entende as contas que exilam, não suporta as retinas mortas daqueles homens que ainda mordem sua alma e balança, remexendo todas as pontas e ramagens, Bárbara silencia, tranca a boca fora do sentido, apodrecendo em osmose, Bárbara arranca seus décimos e últimos dentes, arranca com ódio e repulsa pela besta que habita, tateia a gengiva nua e muito ferida, porém apta a puxar ar e machucar as pessoas, que são nascedouros e nativas de Bárbara, dentro da garganta, nas rasuras dos órgãos inúteis, apta a deixar o rosto banguela vigiar o inferno, Bárbara está nua e fria, hospeda a morte em seu crânio, na sua doce vagina um canal cheio de folhas de papel úmidas, escritas, Bárbara está morta, assim como os seus contemporâneos, falantes expulsos, rompidos, quebrados, devastados, guardiões de um ódio tamanho, fiéis à uma morte sem compaixão e de todos os mortos, uns portam uma outra morte, sumidouro de um vírus invisível. Bárbara não está apenas morta, mas com medo de morrer.

Cláudia de Paula

55 anos, nascida no ano do Golpe. Psicanalista, com mestrado em teoria da Psicanálise e longa jornada na Saúde pública. Escritora com dois livros publicados em edições independentes [o prato] e [língua] e o último [absoluto escuro] a ser editado pela Quixote+Do. 

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