Curtume

                                                                                                                                                                                            Valter Braga  

                                                                        (roteiro para curta-metragem de cordel-animação que utilize a técnica da pirografia em couro cru na criação dos frames)

 

I

(Noite. Belo Horizonte vazia. Brisa quase fria, constante.)

À procura de um refúgio qualquer para dormir, um homem, desgrenhado e maltrapilho, vaga pela cidade aberta. Chega sob o viaduto Santa Tereza, sem perceber que, à pequena distância, do interior de um automóvel parado, faróis com luminosidade baixa, quatro rapazes acompanham tudo.

Com um cobertor nos ombros, ao estilo das capas dos super-heróis de HQ, e algumas tralhas debaixo do braço, o homem examina um canto, outro, mais um… Ele demonstra ter certa familiaridade com o ambiente. Aos poucos se dá por satisfeito, arruma as coisas no chão, beija seu São Francisquinho de madeira e encosta-se a uma marquise daquelas.

Devidamente ajustado, ele desembrulha pequeno pacote e tira dali algo parecido com uma marmita. Há ainda os talheres. A seguir, pega umas pedras por perto e com elas arma, com curiosa engenhosidade, espécie de grelha. Encontra restos de papel e papelão, faz fogo e esquenta o de comer.

II

Agora o homem ressona forte, de barriga para cima. Em seguida vira-se de lado e fica em posição fetal, estrategicamente enrolado em sua “roupa de super-herói”.

Encorajados pelo evidente sono pesado do homem, os rapazes deixam o carro e seguem, pé ante pé, em direção a ele. Um deles, o que vai à frente, leva um galão em uma das mãos. Com muito cuidado e destreza, emborca o recipiente e despeja o conteúdo em cima do homem deitado. Entreolham-se. Cumplicidade. Outro moço risca um fósforo e o solta caprichosamente sobre o homem.

III

(Fogo alto.)

O fantástico homem-tocha se contorce, em desespero, e seus olhos bugalhudos tomam conta de todo o quadro.

IV

(Flashback. Delírio.)

À medida que os olhos de nosso homem deixam o estado de pavor, eles se afastam naturalmente do primeiríssimo plano. É o mesmo sujeito, sem dúvida, mas não mais em chamas, aquele que descansa em uma rede. Alpendre de rancho…

Pendente de uma das vigas que sustentam a cobertura da varanda, um lampião aceso. Uma mulher grávida – sua esposa, com toda certeza – tece, sentada por perto. Há também um cachorro, que às vezes espanta uma mosca com a pata.

Ao se voltar a atenção um pouco para cima do telhado da choupana, tem-se no céu uma meia-lua, que agora, feito mágica, já é, acompanhando o formato exatinho, o chapéu estilo cangaceiro com que o homem toca triângulo em um grupo de forró – este completado por sanfona e zabumba. Terreiro animado. É um são-joão: quadrilha, fogueira, meninada…

Parece estranho, mas uma daquelas bandeirolas juninas, olhada com cuidado, é na verdade um couro de boi, que visto por uma perspectiva mais aberta, feito agora, alonga-se num curtume. Um solzão danado desdobra seus raios sobre a cena. O homem encontra-se bem próximo, onde há uma bolandeira na qual trabalha, obrigando-a a aceitar a cana, que ele entrega aos feixes de cinco ou seis pés.

A engrenagem dentada dá voltas cada vez mais velozes. Sugere tontura. Ela já é o pneu de um caminhão a correr na paisagem. Pau de arara. O homem, entre outros retirantes, vai sentado num dos bancos longitudinais da carroceria. E o veículo deixa poeira para trás… No meio dela, destaca-se um mandacaru, que é agora o símbolo de Netuno, que perde sua exclusividade e ganha a companhia de novos símbolos, é a roda zodiacal, que gira, gira, e para, exibindo o signo de escorpião, que é uma serpente, que é o nó lunar, que é o masculino, cuja seta move-se no círculo formando o feminino, do qual a cruz empina e fica sozinha, cruz que ganha um rabo, é Saturno agora, que se ajeita, e é Júpiter, que ganha outros contornos, é Urano, cuja figura se transforma sem dificuldade em Mercúrio, que já é Plutão.

E as transfigurações são mais vertiginosas agora, num desvario que começa a misturar faces humanas a ícones nordestinos. Dupla de repentistas, cobra de duas cabeças já, feito um ipsilone, que é um urubu descendo sobre a carcaça dum boi, o bumba meu boi, que exibe estampas iguais às do vestido de Maria Bonita, que pisa em chão seco, rachado. E uma das escamas do solo é vela de jangada em alto mar, que é espaldar da cadeira em que vem se sentar Ariano Suassuna. Ele abre um livro que alça voo, a asa branca do velho Lua?, e pousa na cabeça da estátua, em Juazeiro, de Padre Cícero, de que as escadas espiralam um DNA, cujas sequências são rasgadas por peixeira, firme nas mãos de Virgulino Lampião, agora um bonecão em pleno Carnaval pelas ruas de Olinda, entre sombrinhas, passos de frevo e capoeira. Alguém dança um pouco afastado da folia, usa fantasia de profeta, é um jesus, de quem o olho direito é então o peixe do cristianismo, que é o oito deitado do infinito, que são…

V

…os olhos do nosso homem. Que ainda estão abertos, veja bem, mas sem vida já.

Existe o burburinho típico de quando há um cadáver esticado debaixo do viaduto de uma metrópole. É que ali está o polícia, que faz o B.O. Estão ainda: bombeiros – rescaldo, assepsias –; paramédicos – mãos “atadas” –; curiosos – braços semicruzados,

mãos no queixo –; jornalistas – perguntas, indagações, interrogações –; fotógrafos – flashes –; e rabecão – zíper, maca e viagem.

O carro do resgate arranca fazendo vento, e este revolve papéis soltos na rua. As folhas acomodam-se em seguida. Uma delas, nitidamente um libreto de cordel, expõe xilogravura que traz, arrastando um homem pelo braço, uma caveira de foice e vestes longas. Acima do desenho, com clareza, lê-se o título: A INCRÍVEL HISTÓRIA DO MATUTO QUE DORMIU NO INFERNO CITADINO.

(Belo Horizonte semivazia. Amanhecer. Créditos.)

 

 

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