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Morcegos na Neve

Por George Borten

 

Esfriou de repente e começou a nevar, coisa rara em Wuhan. Os morcegos, surpreendidos, não tinham tido tempo hábil para se esconder. Passaram rápido voando rente a minha janela do hotel, aquelas figuras negras oscilantes no meio do turbilhão rodopiante de neve. “Tenho de desenhar isso, colocar isso no papel, um dia”, pensei. Grafismo puro, mas triste, pois quando saí de manhã, estavam lá, dezenas deles, mortos na calçada. Os meninos chineses corriam e os pegavam em cestos. Acho que na noite seguinte todos viraram sopa. Porque em Wuhan tudo que se move vira comida. Era uma culinária austera, vinda de tempos imemoriais, quando a fome grassava. Lembrava-me da comida chinesa que eu adorava, e essa não se parecia nada com aquilo. Explicaram-me que há oito culinárias diferentes na China, e a mais famosa é a Cantonesa, maravilhosa, a da maioria dos restaurantes chineses do mundo. Eu mal conseguia comer no restaurante da fábrica.

 Acostumei-me a preparar uma matula no café de manhã do hotel, e que eu, lá pelas onze horas, comia num canto discreto. Depois quando éramos chamados para almoçar, ficava fingindo, remexendo no prato, beliscando, para não ofender. As conversas, contudo eram ótimas, interessantes. Conversávamos de tudo, em inglês, naturalmente. 

Hwang, o gerente, era perspicaz, obstinado, paciente. De repente em uma conversa, soltou uma afirmativa que me chamou a atenção: “Tenho orgulho de ser Han”. A etnia principal da China, como de noventa por cento dos chineses, é chamada de Han. Não esperava orgulho étnico na China, afinal, uma terra socialista, onde isto não deveria existir mais.

Por um momento ficamos calados. Percebi num relance porque a China, um dia, dominaria o mundo. Eles, os chineses, tinham paciência, unidade e eram muitos. Tinham o tempo ao seu lado. Três mil anos de história, outros tantos pela frente. Podiam ter calma, chegariam lá. Viveram guerras, epidemias, ideologias. Sabiam que tudo passava. Hwang soltava lentas baforadas, pondo e tirando seu cachimbo de lado. Não tinha pressa.

George Borten

O carioca George Borten mudou-se ainda novo para Belo Horizonte, onde se formou em engenharia. Anos depois, passou a se dedicar a conhecimentos mais amplos, transcendendo sua formação original. Mestre em Educação, participa de eventos e atividades culturais como palestrante, tendo como eixo a relação entre ciência e religião. O Canal de Dotonbori é seu primeiro livro de contos, resultado de múltiplas experiências e inúmeras viagens.

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