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O Enterro do Ovo

por Cláudia de Paula

 

Foi sobre o concentrado meio do dia que se deu o ato imprevisto de Luísa. Dia partido, já à menção do ato, quebrado em linhas de dispersão. Durante a passagem aérea e arrastada das horas eram cobertos, os outros e ela, da consistência a que vai se dando o nome de isolamento, encharcados desta matéria vinculada à suspensão das rotinas, ornados, quase alegóricos,  dos próprios órgãos insensíveis. E na exata evidência do órgão-umbigo, apêndice-linguagem arroxeado, o dia vazou desistências, a mais espessa exaustão. Nesta demarcação de limite explodiram os felpudos tumores, sob a cadência da hora branca, aquela na qual a luz retorna os olhos à condição de recipientes rasos.  Luísa, em torta forma, ouviu o movimento interrompido do seu coração. Os dois pés encaixados sobre a perfuração do dia, feridos pelo veneno quase dourado que escorria do orifício. O rosto arenoso, torcido pela invasão de folhas laranjas-verdes-castanhas, borrava pela onda de vento. Os cabelos carregados para o movimento, pela mão cheia de lágrimas, moviam as teias de aranha. As lâminas, finas quase vítreas, do pensamento, desarrumadas, em filas compridas, pelo chão, as lâminas contaminadas, apesar do álcool, pela perda de função. Os tumores, já sem sua jubas,  as ocasionais massas implodidas, cada vez mais frequentes, derramando seus abjetos líquidos, sua morta carga de células. As células respondendo automáticas, ao desenho da falência. E, no desenho, a história contada, a história escorraçada, de rabo arrancado, sem dentes, impotentes, de caralho baixo. Luísa, equilibrando-se nos dedos e os pés, inúteis, Luísa alongada em suas raízes curtas, frouxas sobre as beiras, Luísa que encostava as unhas nos pelados e anacrônicos bichos do cotidiano, que diariamente morriam e agora se jogam dos prédios. Larvas doces sendo depositadas sobre a superfície abandonada das frases, dentro dos restos falados nunca ouvidos, no cinza de todos os pensamentos não pensados. Nos dias da peste havia clareza sobre o sentido ter falhado definitivamente, demonstrando serem as palavras incapazes de envelopar os cortes, as orifícias lanudas, as rachas e rachaduras imprudentes, os buracos vulgo arrombamentos, de todas as partes do que resistira, convencionado como realidade. E a agonia de cada uma das unidades se debatia, pelo fim. Exatamente sobre este ponto de furo no tempo, lá onde Angélica, Joana, Ana, as papa-línguas que habitavam a voz de Luísa, fazendo choro e bocas de desprezo ante a furiosa acentuação do momento, que se deu a descoberta do esvaziamento de sua vontade. Neste agudo traço inclinado afinando a voz do exato horário. As papa-furos, normalmente incumbidas de tampar suas vaginas incandescentes, adormecidas de rosa ejaculação, sendo desviadas para a função de cobrir a negativa do não que respondia. Luísa não sabia se era um ou dois nãos, o que lhe documentavam os ouvidos. As papa-carnes, ridicularizando a chapa ardida que dava entorno ao ferimento do furo que também era traço e tinha sido raspado da língua pela língua em desassossego.  Língua esta que inchada, pouco cabia em sua função de umedecer os lábios. Luísa torcia os pés sobre o furo do qual não era autora, sabendo do calor em torno do machucado, sabendo da infecção nas bordas do tempo, tentando se ocupar em aquecer as palmas nas pálpebras insones. Luísa, que se desgastara em tentativas, inúmeras, de domesticação das papa-sobras. Cobertos, os outros e ela, da membrana ressecada de sangue antigo, faziam silêncio e ninguém dormia mais. Mas o ninguém não interessava mais, naqueles tempos ardentemente sórdidos, de escrotos sem bichos, de bochechas roxas de escarrar veneno, de borboletas mortas embrincando mulheres, de sacolas plásticas servindo de obturações para as bocas banguelas das baleias, que já de óleo estavam secas, depois de alimentar a pós revolução das fumaças e desprezar o carvão. Aqui feita a ressalva de lembrar do tempo, desde quando se fazia resfolegante, tépido, em sua entonação de cruz arrancada, de madeira cortada, sem ninguém para chorar.  E, aliado ao ninguém, sobre aquele dia em que se deu de caber toda a evidência de sua morte gradual, o entendimento da mulher não cabia no furo no ponto, um ponto mesmo inchado de existência, que lhe passou à frente. Luísa fodida de solidão.  Ninguém andava mais. Mas as voltas pelas ruas, a perambulação do escritor ou o chacolejamento soturno do ônibus amarelo, que, de encaixe. sufocava antecipadamente os bem afortunados operários do inferno, caiam soltas na imagem presa na televisão. Mas as pernadas soltas em direção aos bolsões de lágrimas nunca achadas, encaixotados no oco mais vazio do cérebro ou as caminhadas gordurosas dos bonequinhos de armar das revistas, caiam frouxas sem tendões. Estes issos estavam proibidos. O anjo da dor lhes fechara a cara, lhes vedando a envergadura de primeira fome, ou primeira forma de movimento. E lhes fechara as portas, sem aviso, e não se podia nunca mais estar atrás de sombras.  Sabia o anjo da língua mãe e lhe avisara que havia sido fundado um tempo, vestido de peles, que se encaixava em outro código, abatonzado, delineado à rímel e que sacolejava perfume, que iria confrontar cada uma das pernas em seus músculos e que por ordem desta contração paradoxal, as ruas iriam abandonar. Alguns pés, dentre eles os pés de Luísa, que também, paradoxalmente, nunca soubera andar de saltos e, agora, esquecera como abrir a boceta para um homem, riam, de sufocar, do extermínio de suas funções. E o borrão, a diminuta imagem de carne com cobertura de espelho e boca, escancarada, porém sem amigdalas, ainda buscava no dia a incipiência do passado. Mesmo com os fios frouxos. Ninguém esquecia mais da raiva, produto servil e onipresente, enfiado no nó cego em que presente, passado e futuro vieram dar e lhes espumavam as retinas e os fígados açucarados, querendo, aprumando as colunas em s e i, arvorando o ódio em flechas, alucinando quaisquer como seres de invasão. Ninguém abraçava mais. Abraços assintóticos, feitos sobre a tangência última do corpo sem sombras e sem intenção. Portanto des-abraços, portanto abraços nulos, lançados, polvilhados de tristeza, ao não significo mais. A lama, dado tangível de vida no laço, no esboço de corpo que se desfazia como molde, naqueles dias sem horas, que o tempo deslembrado aportava à memória. Um braço aberto era um risco de movimento no ar, sem alcançar qualquer matéria que não fosse reflexo, um risco da desenhista que estava órfã, que estava desfilhada e aberta, com pinças, o peito desfolhado sem eco. O coração asfixiado de nuvens úmidas, sem sangue a deslocar já que pulsar em isolamento é vago e arrítmico. O Ninguém era feito de pilhas e mais pilhas de células vazias de gordura proteica, já que na proteína se encaixava a réplica. Luísa pensava em cavalos. Não porque os quisesse, naquele exato e perfurado local. Pensava para que eles corressem, em algum lugar, pensava, fortemente, para que as hienas, horrorosas e vivas, manchassem as savanas com ranço de carne putrefata, para que os peixes dourados desfeitos das redondices, nadassem em linhas, para longe, muito longe, lá para a proximidade das cerejeiras. Pensava em folhas de louro nas árvores, sustentadas pela seiva que mela, que lembra o melaço de estranhezas que desce de qualquer mulher. Pensava em calangos, em elefantes fêmeas, em salamandras cotós, em onças, pensava que eles rastejavam dentro da terra machucada, que persistiam na violência bruta que não se fazia crueldade, destruição apenas. E morte. E pensava que os morcegos não eram mortos vivos, que os camaleões e as águas-vivas eram vivos múltiplos, que as minhocas lambiam os beiços dos tamanduás, abrindo aquela terra ferida para filas infinitas de formigas marrons.  Luísa era uma mulher à deriva naqueles pensamentos bicholentos e bichofrudos, envolta em penas e lâminas, coberta de antenas e penugens, penugens de pintos antes dos ovos. Ninguém amava o olhar dos corpos mais. Ninguém olhava mais os corpos com amor. Ninguém dava  o corpo ao olhar do amor e ao olho do mais depois. Ninguém mais sabia do olhar que permanecia no olho, mas ia adiante, feito de ventosas, feito de lembranças, feito de areia e água e, depois, em sequência, ia mais à frente da frente e perfilava imagens e capturava pedaços matutinos de sonhos e o esboço das fantasias, e além disso, ia ao mal e juntava pedras a arremessar em formas assustadoras que caminhavam nos circuitos das telas azuis. Ninguém sabia mais dos olhos, bolotas ovaladas com um nervo grudado, ou de outros alguns semelhantes, que, parecidos, rolavam, esbarrando na própria forma desenluvada dos rostos cegos. Ninguém, que era feito de ossos pretos de angustia, desarmava todos os raciocínios, desfiava as imagens, todas as imaginações e os lixos compactados, os sentidos ancorados no peso das coisas,  desembrulhava as formas empetaladas, quebrando os fragmentos, deixando tudo real e inimaginável e portanto cheio. Ninguém que arrastava os filamentos do impossível, ninguém, que era feito de buracos de olhos invertidos, ninguém que apostava seu dinheiro em comprar o que lhe use os olhos. Luísa estava imóvel, estaria sobre o centro do ponto de ruptura ou sobre o ponto de convergência das letrinhas que não cabiam mais no pacote de macarrão? Ninguém mais distinguia as verdades. Todas elas modeladas em cadeiras para ninguém sentar. E como cadeiras, eram bancos e sofás, mesas e tamboretes, até camas. Como verdades as cadeiras se ofereciam nas feiras e nas redes, embaralhadas a anúncios de pintos de plástico e amores instantâneos. Como cadeiras as verdades eram meias e duplas e eram limpidamente baças como o vidro dos ônibus. E cabia catarro e poeira. Seus encaixes tão óbvios de qualquer um copiar e muitas versões oferecidas, de pontinhas finas e cílios caídos, que deixavam a apodrecer o órgão da fala. Logo seriam milhares de mudos. Como verdades, ninguém as levava para casa, já que não se sabia mais o que eram. E também, ninguém mais ia a feiras. E como cadeiras, eram cortinas e abajures, cera de chão e quinas de fazer roxo nas pernas. E como verdades aborreciam o tempo daquele redemoinho doente. Luísa imóvel para não ser expulsa, cabia nas costelas, mas sobrava, nas beiras da vagina seca e dura. E se não compunha cenas, era porque não havia onde ir. Azulejava todos os nãos que encontrava sobre a fuligem do seu tempo de deserto. Vestia vestidos um sobre o outro, calcinhas frouxas sobre as justas, meias do marido sobre as unhas curtas. Luísa era uma bola-bolha-borra com forma, uma coisa destronado da causa animal pelo desgosto da existência, um resto expulso da humanidade morta. Olhava de cima e só via, desta humanidade tépida que agonizara pelo horror, um arranjo de peitos, cu, estômago, intestinos e muito cérebro. Urinava, chorando e guardava lágrimas para o tempo que talvez viesse, deixando seco este agora desmesurado em que permanecia. Queria das razões, uma única razão, um termo de garantia por ter pensado tanto. E aquela que lhe respondia era, agora, a grande besta enraivecida que se masturbava, entre pele frita e porra exausta, uma forma do ex-humano necrosado, que empesteava o ar encardido da peste. Um corpo de insetos bebedores de pus dava à figura, sombra. Um infectado corpo, agarrado à primeira lógica dos pares, suas tábuas de classes amarrada ao peito fechado, a amargura rosada de vermes. As próprias chagas que se curariam, umas às outras, mantidas dentro de grades, abandonadas ao exercício eterno de desfazer o outro, servindo apenas para decalcar a grande barriga furada de fera humana. A língua grossa, anunciando o emaranhado de ideias, deixando ver o quanto as palavras, prisioneiras da miséria, tinham sido infectadas por vírus. A besta anunciava à Luísa do abuso às leis sagradas, espojando-se sobre os corpos dos mortos e sobre a dor daqueles que não mais podiam testemunhar a morte dos seus.  As garantias de que outros continuariam a ser outros e talvez uns e talvez burgueses e talvez caretas e talvez pais, mas não espantalhos cruéis a furar com dedos, a arrancar com dentes, a violar com fogo e medo, as imagens guardadas do que era a tênue separação entre vida e morte, deixavam de existir. Ninguém mais era mais um daqueles que fumegam, inteiros e imperativos em sua condição de copo vazio. Ninguém mais estava vazio de si, tantos eram os acontecimentos que empurravam as gentes de meios braços e meio fígado, já esfoladas na fricção da tela, para a exaustão. Ninguém mais habitante da janela no momento do tempo em que o intestino dela parou. Havia nuvem depois do azul e água depois da meia luz, cimento nas plataformas vazias, infecção escarrada no ferro, moléculas de hidrogênio apartadas e à deriva. E ninguém poderia testemunhar o quanto seu corpo de mulher se enchia de merda. Luísa, em seu posto de mulher sem sexo, gritou da janela para o único pássaro [Estou entupida de merda!].E o vento jogou-lhe na cara vírus mortos. Luísa em seu corpo de mulher sem sexo, colecionava figurinhas obscenas. E perguntava aos ismos o que sobrara de mulher naquilo que guardava isolamento de si. Lembrava dos comichões com flores, do arrepio intimo e imprescindível ante a escuta das palavras grosseiras, lembrava da descontinuidade na visão dos mamilos-vazio-pentelhos-vazio-vazio-pés-certeza de buracos-vazio-pontinha do clitóris com pescoço inclinado-vazio-ausência-angústia-página do livro atestando lábios-espelho-imenso e desarranjado oco-dobras-cicatriz-buracos-vazio. Cabia na mão seu mal-estar, cabia dar de comer ao inquérito em que se via diante da pergunta,  a mole e mal intencionada questão que a punha a ter que ser  identificada com uma certeza, quando não sabia mais nada de palavras, pois não sabia se gênero era sexo se sexo era corpo se corpo era desejo e se desejo era o que corria solto e desenfreado nas margens e se o que corria também era produto e se produto era coisa viva e se coisa viva tinha feminino e se feminino tinha prefixos em trans e cis e se uma boceta feita precisava ser comparada à uma nascida e se realmente havia liberdade diante do tempo e de uma coleção de imagens bonecas que chamava de suas. Luísa não sabia de nada e se sentia exausta. Sentia que o que sabia não lhe era mais suficiente para desejar. E ali, naquele traço de tempo, cacarejava de dor. Todos os outros cacarejavam de dor também. Ou despetalavam e morriam no chão. Ninguém mais sabia. Porque o saber indagava da crença [onde estás?].E a crença respondia [na ciência. E você, saber? Na desconfiança, na dúvida, no medo ou na morte?]. E o saber respondia [no tempo]. E o tempo, sabia-se , estava encurralado por um vírus simples. Cabia ao destino deste vírus a competência de no dentro e fora do vivo, voar com grandes asas transparentes, replicando-se na gordura da morte. E Luísa não queria morrer. Chorava as lágrimas secas da modernidade, todo dia, todos os dias. Pintava de roxo e cinza os baixios dos olhos só de secar ante o replicar das telas. Secava, sem máquinas e sem respirador, por todos aqueles que morriam, por todos aqueles que morreram, por todos aqueles que acudiram os mortos e não viram nada, porque a morte tropeça no invisível e cega os homens. Luísa pendia, debatendo no chão, feito um círculo que se abre no cimento com giz e quando, não sabendo o diâmetro vai-se, alargando ao corrigir e sem correção possível vai se ovalando e sem oval possível, abre em gema e clara. Era assim e foi assim que Luísa chegou ao ovo, agora sem a plumagem dos pintos, abandonados mortos na infância. Chegar ao ovo pela tentativa de fazer do espaço uma continuidade, costurar a visibilidade ao movimento e tentar abrir o corpo sem adoecer. E, Luísa, se esquecendo do impossível, foi até bater-lhe os dentes. Criança ainda queria ser nadadora ou bailarina, pois eram desses mundos as vozes que ouvia, do mundo verde da água sem cloro, do mundo castanho das repetições respiradas. Nunca conseguiu, pois nem mesmo sabia andar com um corpo que lhe parecia estranho, sempre pendente para os lados, cadente para a frente, arranhando-se nas quedas, desviando-se tarde demais dos desníveis e das pontas. Naquele momento tão instável, Luísa desaprendia andar, buscando fazer das pernas um madeiramento de permanência do corpo na condição de bípede. Também aquela condição estava em jogo, no terrível lance dos dados, soltos na espuma escurecida dos dias que não terminavam, dependendo de um arranjo infinito de micro desejos e mini fatos para cair, ou não, sobre a morte. Não só a morte dos Zés e das Anas, mas também das gramas de pensamento apostadas no número três, aquele que enreda o vulgar eu, o bichinho aterrorizado, aos seus issos e às sombras dos neutros.  Os chocalhos de prata anunciando um bípede afundado na linguagem, babando e fodendo com tudo que responde à incógnita do seu aparecimento equivocado na selva. Um abandonado saco de carnes, mal tratado, arrastado pelas ruas, linchado nas frases e pelas frases, agarrado à sua casca quebrada e à maçã inflada de bichos que carrega no estômago. Há algo descendo a correnteza e Luísa ouve. Um ovo perdido, inviável em seu reconhecimento de progenitura. Um ovo sem mãe. E este ovo, resíduo do movimento desfeito do círculo, repete , em seu escorrimento perfeito, a queda da condição de bípede em Luísa, que cai de quatro. Cai sobre cotovelos e mãos e joelhos e tornozelos e pés. Cai sobre a figura deposta de mulher. Uma mulher de quatro pode ser um objeto sexual a ser revirado e usado e cuspido e gozado. Um pedaço de imagem lasciva e obscena, ferida em seu coração de asno. Um pequeno arco de indignação e ódio. Uma curva de ofertas ridículas e arrependimentos. Uma circunstância atemporal de dúvida.  Um ramo sem folhas prestes a secar. O que seria uma mulher no quatro de seu corpo? Um coisa em quatro partes, grudada no chão? Uma oferta prototípica de poder? Um abismo resguardado por uma toalha branca? Um vidro cheio de bactérias e demônios? Um cacho de uvas verdes alto demais para as fêmeas? Um resto de coisa falante? Um resíduo, molhado de saliva, de uma longa frase? Luísa sofria encharcada de uma dúvida única de tempo de vida. Luísa começava a mudar sobre a lógica, fazia-se arvore de espinhos e ardendo, soprava as cinzas. Que mesmo cinzas propagavam o vírus. Ninguém, depois daquela queda, de bípede à asno, de carne à folha, de espirito à dissolução, sabia de si. A cena, por fora da tela, adoecera as orelhas, deixando-os além de mudos, surdos.  O homens não paravam mais, pois parar seria admitir história, sangue, vergonha e o lastro de medo que os guiara até aqui. E se não se podia andar, nem parar, as pessoas simplesmente se estreitavam, faziam de suas memórias líquidos e da lucidez poeira. E os céus iam ficando escuros dessa poeira triste, piorando a moléstia nascida nos rastros da floresta morta. E, empoeirados, ninguém mais abraçava ondas e furava bolos com os dedos. Há muito tinham desistido de usar as mãos para fazer cócegas na barriga dos peixes. Ou esticar as línguas até lamber os pardais. Esses tinham sumido de vez. E, canários só eram encontrados debaixo de suas asas engaioladas. A fúria das matas estava perdida há muito, a caatinga reinava sob os fuzis das milícias, as penas nos cocares adornavam as casas dos modernos que colecionavam tradições. As peles marrons avermelhadas dos índios, enumeradas, repousavam nas coleções de ancestralidades que, alguns poucos, retinham entre os móveis.  Tudo, até mesmo a vida sexual era quantificada em orgasmos, anotados nos apêndices vitrificados que falavam e expunham as entranhas daquela decomposição ora nomeada de sexo. Tudo era feio e reto como os condomínios de vidros sem luz [como fora possível retirar a luz dos vidros e fazê-los baços e invioláveis?]. Como eram perdidos estes outros trópicos sem linha de fuga para a luz e esquecidos do ardor da inação. Tristes trópicos subjugados pelo dever de gozar, transformados bocetas e paus e cus em flores a serem esmagadas. E neste mercado inenarrável, ninguém mais comia qualquer coisa [dada a exceção para as mulheres de plástico se dando ao horror de serem frangos e serem depenadas, lambuzadas de saliva, enfeitadas, para serem finalmente assadas nos fornos de inox, cabendo por vezes serem devoradas, por vezes apenas deixadas debaixo de lâmpadas grandes, para não esfriarem em seus corações desamparados]. Ninguém devorava o qualquer, pois ele, o qualquer se disfarçava na carne podre do outro e era para o pobre Danoninho e biscoito fofura e para o vegano o sem bicho e para o chique a lagosta cozida viva ou o patê de fígado de pato e para o rico os espetos de corações e picanha e para os que sobravam o que era possível pagar. E os quaisqueres adoeciam, proclamando no telejornal o abandono em que se encontravam seus mercados de ofertas, pois cada dor, pé de flor, prato de comida ou criança-macaco que, antes eram documentados e enviados para os outros dos outros, encontravam agora ninguém e estes, outros sem outros, não desejavam mais nada e não podiam comprá-lo. Cruéis trópicos globalizados.  Neles, Luísa, com seus pés inchados de inação, atormentava os olhos,  passando durex aos cílios na intenção de atá-los às histórias que eram contadas pelas vozes que vinham dos pequenos aparelhos acoplados aos homens. Eram histórias inventadas por máquinas. E por seres bifurcados que existiam sem pensar. Estas balburdias, estouravam as vilosidades das palavras ditas, arrombando as carnes íntimas de verbos e substantivos. Palavras que postas uma à frente da outra não intencionavam nada, não figuravam nada mais que ausências. Frases enormes que inventavam pessoas, que inventavam prisões para colocarem pessoas, homens e mulheres que não queriam ser trazidos, neste bizarro eterno retorno do humano, ao humano, prendendo-os dentro de suas salas inventadas. Enquanto tudo isso acontecia, olhos atormentados eram a forma de desobediência possível, a indisciplina em compor imagens, alterar a significância de cada curva, das dobras e das volutas, das retas e tangências, dos inchaços e das frestas, dos reflexos de todas as luzes, dos traços palpáveis de cada letra. Porém ao habitar uma paisagem absolutamente obscura, cabia aos olhos atormentados assumir a competência, imensa, de charcos apodrecendo as fôrmas da tal eterna humanidade. Cabia destroçar com dentes o humano e não mais dilatá-lo. Cabia morrer de humano e não de vírus. Ninguém, absolutamente ninguém acreditava mais em justiça. E aqui, chamemos os leões verdes, os abutres purpuras, as enguias dragônicas e agônicas  para testemunharem a louça quebrada no chão, louça que deixou tombar o leite [que por sinal havia sido desviado da boca magrela de uma criança]. Sim, havia leite derramado sobre a terra castanha, avermelhando-se rápida num vértice de sangue negro, pois no brasil o sangue que cai do bule quebrado é negro. E, nestes tempos imóveis, o movimento do sangue coalhando, faz barulho de porco morrendo. Ronca e grita. Lá onde a flor não cheira. Lá onde ninguém mais pensa em esperar justiça dos apodrecidos, sujos, tortos homens e mulheres maiúsculos. Ninguém e a mulher, sobre o tempo, pensavam mais em esperar. Sabiam que os nós estavam quase soltos, os laços já não amarravam e a costura do tudo estava rompendo. Havia, porém,  por todo o lado, um ainda quase corpóreo, uma ausência sem medida. Não era uma ausência com cor ou densidade, não possuía espectros, nem alojava fantasmas. Antes, no antes daquela peste espectral, as ausências, das quais Luísa se recordava, tinham zonas de vazio e angústia, uma respondendo a outra na incidência do insuportável. Agora o vácuo anunciava outras dores sobre os corações já tão machucados, pois a ausência anunciava um grande desaparecimento, um ralo descomunal que tragara os afetos, os amores sólidos, os ódios ferrenhos, o aquilo qualquer que lembrasse as invasões eróticas da vida. Toda a coerência fora drenada pela tragédia daquele fim e aqueles, os mudos e surdos, os despreparados, deparavam-se com um solo raso, quebrado e solto, arrasado, entregue às fagulhas e fragmentos, que não lhes dava pé. Um excesso de eus devastados. E lá bem dentro deste abuso de dor, estava o ovo de Luísa. Grudado na ferrugem da pergunta [depois que a merda começa, para onde vão os espaços entre os corpos?]. Todos aqueles que quiseram ser tudo, ter tudo, partir e repartir o corpo para todos, arrasar a língua e o mar, sacrificar as palavras por um múltiplo insaciável, desmanchar a imensidão que falta em um caldo onde o imperativo é a barganha por ficções compráveis, todos eles que são todos e deste nós não há quem escape, perderam. A ideia de que eram indivíduos, e neste grão abençoado pelas luzes,  cada um em sua burrice e glória, em seu parque dourado, podia arrancar órgãos-uvas, despetalar bichos, rasgar tratados, anestesiar qualquer dor,  esta que por ser pensada tornou-se verdade, e, tão estranha e crua, agonizou, morreu. E a cada dia velho, deixa testemunhos ao alcance do vírus para que ninguém os ouça. Eles que sacralizaram a fantasia de que eram humanos e inventados pela extensa necessidade de existir, perderam.  E, sem nenhuma fodida saudade, perderam o que tinham, sem nada ficar enquanto consolo.  E não há porque confundir este nada com castigo ou justiça dos céus, pois além deste necessário imposto pela história, havia apenas o impossível. Algo como não continuar ou destruir. Destruíram. Luísa sabia o quanto destruíra. Estavam assim, uma grudadura desfigurada, emaranhado de eus, seus, meus, alucinando pertencimento, entendimento, esperança. Afogados na desesperança de ter, no corpo morto do outro, um fundo de pé. Aqueles outros, os de pronome teus, apareceram no final da festa, melados, foscos, irrecuperáveis, imersos no mesmo embolado. Nossos eram apenas os vestígios. Nosso era o pensamento agonizante. A transformação de bípedes em sólidos desmanchados reunia aqueles seres perdidos, os defrontava ao vírus. E, para dar notícias do tempo, em tempo de medo de um incauto apêndice do vivo, o tempo seguia concupiscente, aflorado de nervuras brancas, furadinho, senhor do sempre. Tão demônio quanto deus. Os lodos das pedras não alimentavam ninguém. Os lodos das pedras alimentavam a ninguém, soltando-se sobre o impacto do mar imóvel dos afogados. Aqueles que de bocas escancaradas, famintos catavam lixo, vertiam cachaça, roubavam panelas para amontoarem em oferta ao deus-demônio. E sobre os montes, uns de panelas, outro de livros inúteis, o último de orelhas perdidas e bocas sem uso [este último em tons de rosa, vermelho pungente e violeta amarelando], as velas da nefasta cerimônia iam sendo acesas. As mãos que buscavam ser dependuradas, em qualquer lugar, prontas para serem utilizadas como inúteis, tinham sobre a pele marcas do trabalho escravo e, miseravelmente se orgulhavam disso. As velas, em pálido tom marfim, talvez uma última homenagem aos elefantes sacrificados, sendo acesas para receber as carpideiras do inferno. Uma estranha categoria de homens demasiado humanos, absolutamente encarcerados na célula do que fora o homem, possuidores do mais terrível medo de existir e pagar com a vida pelo desejo. Carpideiras homens embutidos no feminino devastador, possuidoras de asas que se magoavam nas colisões das orações. Havia um tempo para que chegassem, havia um buraco no tempo. Havia um hiato agora, Luísa sentia-o. Não que ele fosse durar além do tempo de as velas serem acesas, não que as bolotas roxas quando aflorassem na primavera ainda o presenciassem, não que houvesse tempo de Luísa aprender a desistir.  Mas agora, depois da enunciação dos adjetivos possíveis, havia um intervalo. Um intervalo de tortura que importunava os seres imobilizados. Durante aquele bônus de presença, o corpo de Luísa respondia ao vivo, também respondia à morte, dentro do silêncio, amarrado às pedras que ela mesma desenterrara. Foram escavações difíceis, onde precisara se lembrar de muitos retratos, de brincadeiras cruéis em que o riso despencava da boca sobre espinhos, de verbos incrustados na pele, de quanto abrira as pernas forçada pelo modelo de mulher em que acreditara e todas as vezes em que fechara o cu com força, para não dar algo do que lhe era precioso e desconhecido, algo do que lhe ardia os intestinos e se misturava à merda, algo muito familiar ao pensamento, mas que lhe escapava sempre. E uma nostalgia longa, feita de solavancos e intimidade, lhe apertava as costelas inexperientes em respirar, pois respirar, agora, era um ato descontínuo com o automático, uma tentativa de aterrisagem no coloquial da rotina, sem obtenção de permissão. Cada pequeno toque na superfície do ar era assinalado por um x, como uma resposta ao enigma de permanecer. Luísa se perguntava se queria permanecer na rotina de estar viva como mulher. Tão pouco queria ser um homem, tão pouco queria ter algo entre as pernas, tão pouco queria ser binária. E aqui também o ovo reaparecia na narrativa dessa mulher encruada entre o feminino e o pensamento imaginário das repetições, fadada a percorrer longos circuitos de possibilidades e descartar o prazer. Um ovo é a negação do estado de sexo sendo um quase nada. Mas ao mesmo tempo sendo um corpo e Luísa sabia que, apesar de todo mal estar, queria permanecer sendo um corpo e que este um fosse um punhado de órgãos falantes, lhe parecia uma alegoria muito exata. Sabia que cabia aos corpos continuar sendo, lutar para estar vivo, manter-se em permanência. Luísa considerava os corpos sagrados e buscava o entendimento de como, com tantos buracos, tantos furos por onde a morte entrava e saia, por onde o lixo do mundo escorria, por onde os eus das vozes espreitavam os outros das vozes, de como com todo esta invasão e entrega constantes, de como ele se mantinha inteiro. Luísa admirava o forte do corpo e se compadecia de tantos, tantos que sofriam, ali, na rua próxima, dentro dos buracos e oceanos desta terra amarga, exausta de tantos abusos. Assim como os corpos, ainda assim amedrontados pelo medo de deixarem de ser corpos e passarem a ser cadáveres numa fila de espera. A fila de espera dos cadáveres era muda, surda e também cega, a diferença das criaturas atuais, que ainda viam e imaginavam, quase tudo. Uma fila que lhes daria o direito de um enterro sem flores, sem preces, sem nenhuma palavra dita. Luísa pensava furiosamente no ovo. Ninguém mais estava fora do todos, ninguém mais estava fora do território da morte [assim como nunca estiveram os humanos, mas aqueles ex-humanos recém afeitos, nem todos, quase alguns apenas, à sua condição de mortos da humanidade, sabiam desta equação que os colocara como resíduos, reunidos aos mortos que não mais respiravam,  num sepultamento sem cerimônia, sem corpo, onde as flores, os flamingos e os golfinhos estavam gloriosos.  Presentes ao enterro de si mesmos, estes, ex-humanos, que continuavam a respirar, começavam a se dar conta deste imenso luto, a qual o vírus só dava encerramento e davam seu silêncio estupefato a este atravessamento da morte. Os outros, aqueles inúmeros que ainda teimavam em ignorar, viriam depois, se sobrevivessem ao vírus]. Ninguém mais estava fora do território do todos, juntos os alienados do mercado e de deus, aqueles que carregavam a merda e os que comiam a merda e saiam a espalhar seus gases fétidos, juntos  os loucos que padeciam das loucuras da linguagem e do corpo, juntos os desarrazoados que acreditavam que a terra se aplainara e os gozos eram um só e, por fim, juntos os insanos da maldade, juntos e não iguais, como não poderia ser. Diferentes e juntos como ex-humanos. E havia, neste fim de intervalo, uma beleza machucada, uma infecção no véu que separara os homens do abismo. As velas acesas agora sobre os montes faziam a margem desta beleza nova, feita mais de ausências do que presenças, composta pela imobilidade do tempo e pelas beiradas não cicatrizadas do furo. Furo onde Luísa ainda se equilibrava, apesar de contar, em cada movimento de queda e suspensão do seu corpo, a certeza do seu fim, tinha medo da morte e sentia a tristeza mais infinda que já conhecera. Sabia ser testemunha deste  fim, já que sabia, assim como sabia que estaria muito sozinha, ainda mais sozinha se sobrevivesse ao vírus, pois a maioria dos ex-homens negaria e denegaria e esconderia as pobres cabeças nos detritos da peste]. O ovo que de quase nada e nenhum sexo, permanecia intacto em sua aptidão para a ovalize, para ovalizar os olhos em continuidade de qualquer coisa que servisse a não desaparecer, parecia, agora, uma matéria provável à vida, para uma Luísa que não sabia mais como estar viva e ainda assim queria permanecer. Era seco e ósseo este desejo. Era feito de muito clara textura de nitidez e um profundo amarelo que juntava células frágeis demais. Talvez a morte… Talvez se lhe escutasse os apelos, lhe afagasse os peitos com ternura, talvez se aproximasse seus lábios daqueles mamilos… Luísa tomou do todos aqueles insensíveis segundos, e fez caber o ovo em seu ser que cabia nas mãos. [teria o ovo o vírus?]. De tantas era a resposta que sabia, o ovo cabia em seu cu. E o riso que lhe tinha sido extraviado por todas aquelas páginas, abriu seus lábios num ponto de ridículo que lhe agradou. Um ponto de rompimento, já que em sua história o cu sempre fora um vilão adorado, e este ponto desaguava no ridículo, o que lhe caia bem. Começou a operação. Pintou sobre ele em tinta azul, para que as palavras transparecessem, uma oração tão justa como o seu coração. [Pai, ou será mãe, melhor pai e mãe, ou ainda mãe e pai, entreguem para este instante, sua beleza de poder existir sem saber e ainda assim dissolver o ódio em pequenas fagulhas de merda, que de tão dissolvidas servem de adubo para as flores e ainda assim saber do fim, ainda assim aceitar os grãos de vida que existem no caos, tão próximos aos grão de morte, e que são apenas grãos à deriva, colidindo. Tomem nas mãos e soprem, soprem longo sobre o oxigênio, sobre a terra ferida, para simplesmente acalmar a ausência eterna que agora dói demais. E, sem perdão, sem pedir perdão, sem pedir nada, mordam nossas cabeças e cuspam. E, cientes, que peço muito, escutem e fixem, no mundo pequeno e azul, o depois desse tudo que se encerra com a peste, e que a normalidade só retorne a ninguém e que permaneçamos outros. Obrigada]. Depois disso, com os movimentos lançados ao mínimo do amor, pegou o ovo, cobriu-o de sal lambuzou-o de manteiga, enfiando-o na cova rasa que seu cu se tornara [chão duro, queimado de falta de chuva]. Ainda plantou ali um pé de alma, daquelas que foram arrancadas aos montes da mata atlântica. Retornavam, o ovo, o sal e a alma  para a vida que existe na proximidade da morte. E o conforto de existir assim, confiou-lhe um corpo menos afeito à permanência, o que era seu desejo. Depois disso, acomodou-se um pouco melhor sobre o furo e aguardou, retornando a leitura do livro de Manoel de Barros.

 

Alice

Cláudia de Paula

55 anos, nascida no ano do Golpe. Psicanalista, com mestrado em teoria da Psicanálise e longa jornada na Saúde pública. Escritora com dois livros publicados em edições independentes [o prato] e [língua] e o último [absoluto escuro] a ser editado pela Quixote+Do. 

8 comentários em “O Enterro do Ovo”

  1. Gostei muito!
    Para mim o conto junta o momento da pandemia com o abismo dentro e fora em que sinto que nos encontramos atualmente.
    Aquele abismo que eu materializo na lembrança de caminhadas com amigos pelas madrugadas de neblina no Retito das Pedras, enrolados com cobertores de lã e andávamos até a igrejinha que ficava encima da encosta do vale, e pisávamos nas últimas pedras que eram possíveis ser vistas em meio a neblina já bem densa, para ficarmos ali parados na beiradinha do abismo, de frente ao branco do nada oco e cegante.

    Parabéns pelo texto e pelo belíssimo desenho!

  2. Miguel Henrique Cruz de Santana

    Realmente o conto está maravilhoso, não são todos que ainda possui a maravilha de deliciar essa introspecção, o pensamento puro e sem ser negado e interrompido, linha por linha em sua autenticidade como diria Heidegger, realmente nunca me identifiquei tanto nessa angústia, na presença dos relatos ao usar o vírus, os vermes, o vazio existencial clariciano desse ovo que ao ser inserido no prazer anal freudiano, realmente me senti acolhido ao ler esse conto, que não era o único a pensar assim, seu conto iluminou as minhas horas da noite hoje, realmente está maravilhoso.

    1. Cláudia de Paula

      Oi, Miguel. É uma estranha familiaridade esta, a de sentir o que o outro sente, sem estar frente a este outro. Os livros sempre me fizeram sentir menos só e é belo para mim poder estar assim com outros. Obrigada.

  3. Querida, tenho me perdido n’ “A lágrima clara sobre a pele escura / A noite, a chuva que cai lá fora /
    Solidão apavora / Tudo demorando em ser tão ruim”…ah Caetano…
    É tudo tão demorado em ser tão ruim…Mas aí vem o ovo no oco da gente. Suas palavras fazem vibrar os vãos da alma nesse sem-fim de dor e, também, de ínfimas alegrias, seminais alegrias, dessas que podem se perder pelo ralo, que brotam nas beiras, que se escondem atrás dos móveis da casa vazia, mas estão por aí, pelos cantos, pelo caminho.
    Vai, moça, vai amiga! Um beijo, direto daqui desse fundo de armário onde acordei hoje.

    1. Cláudia de Paula

      Oi, Andréa, que meu ovo possa estar neste fundo de armário contigo te soprando ternura. Obrigada pelas palavras.
      Eu vou, mas acompanhada dessas vozes aqui.
      Beijo grande

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