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Sitiados

por Fernando Armando Ribeiro

 

 “Uma coisa era certa, era preciso vencer o grande cerco.” Esta parecia ser a síntese das recordações de Pedro sobre aqueles agitados anos. Jamais, porém, imaginara que se lembraria desses tempos com saudade.

Diante das provisões  cada vez mais escassas, os moradores da cidade não tiveram opção. A reunião noturna no clube central traduzia o desesperado propósito. Afinal, eram homens pacíficos: operários, médicos, pais de família. Homens que jamais imaginaram pegar em armas. Mas os imperativos da hora tornavam as ações incontornáveis.

Assim, quando os líderes terminaram seus discursos, uma voz de adesão alastrou-se entre os presentes. Munidos de diversas armas, mas sobretudo armados de uma férrea vontade, iniciaram a jornada de resistência que culminaria na libertação da cidade.

Pedro já não se recordava das corajosas ações de enfrentamento, das estratégias e dos  gestos de heroísmo inesperado. Mas trazia bem viva a memória, guardada com afeto, dos encontros, das conversas e da ajuda mútua a que todos então se habituaram.

Com a cidade sitiada, não havia salvação senão pelo cuidado. Cuidado manifesto na partilha dos alimentos, no imenso voluntariado a servir nos hospitais, no empréstimo de imóveis como trincheiras e abrigos. Mas Pedro lembrava-se, sobretudo, do cuidado concretamente presente em cada gesto e palavra.

Recordava-se  do dia em que fora vitimado por uma infecção. Acamado e com febre, sua ausência seria logo sentida nos encontros no clube. Vizinhos e desconhecidos deslocaram-se até sua casa. Levavam chás e alimentos, e passaram a revezar-se na prestação dos cuidados.

Foi assim que conheceu Maria Amélia, a altiva e zelosa moça que passava horas ao seu lado. Media-lhe a  pressão, a temperatura, preparava sopas e  remédios.

“Você é um anjo!” disse-lhe certa vez.  E depois ficou a refletir sobre a  misteriosa interjeição da moça, seu olhar penetrante e indagador.

Quando a febre infecciosa passou, uma outra, igualmente devastadora, veio a instalar-se em seu peito. O amor incandescia em meio à guerra, mas a moça não acenava esperanças.

“Preciso conhecer o mundo”, ela dizia,  “Há tantos que necessitam minha ajuda.”

Um dia ela se foi. A Pedro só restaram as cartas enviadas de além mar sob o selo da cruz vermelha. Eram esporádicas e cada vez mais lacônicas. As últimas comunicavam que ela havia fixado residência na Europa, mas passava a maior parte do tempo entre famélicas tribos africanas, e zonas de conflito no Oriente Médio.

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O voo rasante  da gaivota  despertou o homem no píer do mergulho nas profundezas da memória. Notou então que o mar empalidecia, e o céu começava a formar um caleidoscópio de cores. Embarcações continuamente chegavam acompanhando o movimento do poente.

Olhando à sua volta, percebeu a enorme quantidade de pessoas a transitar no porto aquela tarde. Sem os medos de outrora, poderiam julgar-se livres, mas…

Naquele instante, os olhos de Pedro deslocaram-se para um banco de pedra no calçadão. Ali tivera seu primeiro encontro romântico com Maria Amélia; ali ela lhe dissera aquela misteriosa frase que um dia julgou compreender: “O que será de nós depois?”

Sempre imaginou que estivesse se referindo a eles, um convite (ou uma recusa) ao relacionamento por vir.

Mas a visão da velha ali sentada, triste e doente, sem encontrar o mínimo gesto de comiseração ou amparo, dava àquela frase um novo sentido: “O que será de nós?”

O grande cerco tinha terminado, mas o que teria havido com eles? Eles, os cidadãos daquela cidade, que um dia sonharam ser livres. Tão indiferentes, insensíveis, refratários a todo cuidado. Corriam solitários, pelos cantos, pelas horas, e embora sem perceber, estavam mesmo sitiados.


Fernando Armando Ribeiro é professor da PUC- Minas e juiz do TJMMG.

Imagem: The Blue Rigi (1842, British artist J. M. W. Turner)


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